
Transplantes prejudicados
Levantamento mostra que órgãos são recusados para doação de ilhotas pancreáticas por fatores que vão de problemas de saúde do doador a falta de pessoal treinado

A diabetes tipo 1 (mellitus) é uma condição resultante da destruição das células beta do pâncreas pelo próprio sistema imune, fazendo com que o órgão produza pouca ou nenhuma insulina – hormônio responsável pelo transporte de glicose, a principal fonte de energia celular, para o interior das células musculares. Por conta disso, portadores da doença precisam de aplicações de insulina para o resto da vida. Frequentemente, porém, o tratamento não evita as complicações mais comuns da diabetes.
Uma alternativa promissora de terapia é o transplante de células isoladas de ilhotas pancreáticas, responsáveis pela produção de insulina e que podem ser retiradas do pâncreas de doadores com morte cerebral. As condições de saúde dessas pessoas e questões técnicas para manutenção, transporte e isolamento dessas células, contudo, impedem que mais procedimentos do tipo sejam realizados no Brasil, revela um estudo publicado na revista Diabetology & Metabolic Syndrome por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP).
Os autores, membros do Grupo NUCEL de Terapia Celular e Molecular da FM-USP, fizeram uma análise retrospectiva dos pâncreas recebidos no centro entre janeiro de 2007 e janeiro de 2010 e as justificativas para recusar a maior parte dos órgãos.
No período, 558 pâncreas foram oferecidos pela Central de Transplantes do Estado de São Paulo, sendo que 512 foram recusados e 46 aceitos para o isolamento e transplante de ilhotas.
Os dados indicam que hiperglicemia, questões técnicas, idade, sorologia positiva e hiperamilasemia são as principais razões para recusar os órgãos. No caso da hiperamilasemia, que é o excesso da enzima digestiva amilase, ela pode estar associada a traumas de crânio, uma das maiores causas de morte cerebral no Brasil. Foi a quinta maior causa de recusa de pâncreas no estudo (8,2%).
A primeira causa de recusa de pâncreas, porém, foi a hiperglicemia (14,8%), que pode ser prejudicial às ilhotas pancreáticas, uma vez que é associada a uma taxa aumentada de morte de células beta – justamente as que sintetizam e secretam a insulina.
A glicose elevada pode ser uma consequência da internação do doador em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os medicamentos administrados e a alimentação parenteral podem contribuir para a instabilidade nesse fator.
Questões técnicas responderam por 8,7% das recusas, a segunda causa mais frequente. As dificuldades incluem: número insuficiente de pessoal qualificado para isolamento das ilhotas, problemas relacionados a disponibilidade de reagentes e suprimentos específicos, e problemas no transporte do órgão, dada as grandes distâncias entre os hospitais onde estão os doadores e os centros de transplante.
Por fim, a idade elevada dos doadores (8,5% das recusas) e a sorologia positiva para uma série de infecções (8,4% das recusas) completam o quadro de dificuldades para obter as ilhotas pancreáticas.
“Considerando a oferta de pâncreas para transplante de ilhotas no Brasil, nosso estudo aponta para a necessidade de concentrar os esforços em ações que permitam melhorias na qualidade da manutenção dos doadores em UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e a minimizar os problemas técnicos”, escreveram os autores do estudo.
“Acreditamos que as conclusões do trabalho possam ajudar a aumentar a disponibilidade de pâncreas de melhor qualidade, levando à melhoria do isolamento das ilhotas e dos resultados do transplante”, concluíram.
Transplante no Brasil
O NUCEL foi o primeiro centro no Brasil a fazer um transplante de células de ilhotas pancreáticas, em 2002. No total, cinco pacientes passaram pelo procedimento, que consiste em uma ou mais infusões das células isoladas na corrente sanguínea.
Apenas outros dois centros realizam o isolamento e transplante: um laboratório da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, em Curitiba, e outro do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Na maioria dos casos, os portadores de diabetes mellitus que recebem o tratamento passam a produzir a própria insulina e dependem menos das injeções do hormônio, além de diminuir ou eliminar episódios de hiperglicemia.
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