
Para frear a toxicidade cerebral
Pesquisadores tentam destrinchar moléculas capazes de interromper processos neurológicos relacionados a doenças como Parkinson

Alguns grupos de pesquisa espalhados pelo mundo, empenhados em destrinchar os meandros da bioquímica por trás de doenças como o Parkinson, estão chamando a atenção para compostos encontrados naturalmente no sangue de animais, entre eles as lhamas e os tubarões. Se os seres humanos contam com um exército de anticorpos em seu sistema imunológico sempre prontos para perseguir e destruir microrganismos invasores, os camelídeos e os grandes predadores do fundo do mar também têm um mecanismo de defesa. Nesse caso, são os chamados nanocorpos, que podem ser classificados como mini-versões dos anticorpos.
Uma das linhas de pesquisa sobre essas moléculas vem demonstrando que elas podem desempenhar um papel importante na interrupção de processos neurológicos tóxicos relacionados a determinados tipos de tumores e doenças autoimunes. Entre elas, destacam-se o Parkinson e a demência por corpos de Lewy – aglomerados de uma proteína específica, a alfa-sinucleína, formados no interior dos neurônios e que matam essas células. A tese foi reforçada em um estudo recente, publicado por um grupo de pesquisa na revista Nature Communications.
Pesquisadores da Escola de Medicina Johns Hopkins e da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveram um nanocorpo capaz de atuar diretamente no cérebro de roedores. O composto atravessa as resistentes células cerebrais para atuar diretamente sobre a alfa-sinucleína. Ela também já esteve ligada, por vários outros estudos, a doenças como o Parkinson. Os pesquisadores, no entanto, encontraram um problema adicional: por essa proteína ocorrer naturalmente no cérebro, ela atua em processos neurológicos sadios e considerados importantes.
Os distúrbios neurodegenerativos relacionados à alfa-sinucleína, identificados por outros grupos de pesquisa, começam a ocorrer quando a proteína se aglutina em aglomerados tóxicos. A consequência final desse processo é a morte neuronal.
Evidências científicas também já mostraram que os aglomerados de alfa-sinucleína podem se espalhar do intestino ou do nariz para o cérebro, impulsionando a progressão das doenças neurodegenerativas. De acordo com os pesquisadores, os nanocorpos montados agora têm mais chance de se espremer por entre os revestimentos mais resistentes das células cerebrais do que os anticorpos, que são maiores.
Os nanocorpos montados nos Estados Unidos pela equipe da Johns Hopkins e colaboradores foram modificados geneticamente para que se comportassem de forma mais estável no cérebro dos roedores e, ainda, se ligassem exclusivamente aos aglomerados de alfa-sinucleína. Os cientistas fizeram sete tipos de nanocorpos e apenas um deles se mostrou eficaz.
“Surpreendentemente, induzimos a expressão de PFFNB2 no córtex e esse nanocorpo impediu que aglomerados de alfa-sinucleína se espalhassem para o córtex cerebral do camundongo, a região responsável pela cognição, movimento, personalidade e outros processos de alta relevância”, afirma Ramhari Kumbhar, pós-doutorando na Johns Hopkins e um dos autores do artigo científico.
“O sucesso do PFFNB2 na ligação de aglomerados de alfa-sinucleína prejudiciais em ambientes cada vez mais complexos indica que o nanocorpo pode ser a chave para ajudar os cientistas a estudar essas doenças e, eventualmente, desenvolver novos tratamentos”, diz Xiaobo Mao, professor associado de neurologia, que também participou do trabalho.
Ressalvas
Se mais esse tijolinho científico foi colocado sobre o caminho que visa desvendar as doenças neurodegenerativas para ajudar a melhorar a qualidade de vida dos pacientes, vários outros ainda precisam ser colocados, como atesta Susan Chien Hsin Fen, neurologista da Universidade de São Paulo (USP). “Os nanocorpos têm um futuro promissor, mas tenho algumas ressalvas na relação entre essas estruturas e, mais especificamente, a doença de Parkinson”, diz a pesquisadora.
De acordo com ela, apesar de muitos trabalhos sobre o tema já terem sido publicados – e ela classifica como elegante o estudo feito na Johns Hopkins – não se sabe ainda se, de fato, existe realmente uma relação de causa e efeito com a proteína alfa-sinucleína ou se ela funciona apenas como um marcador da morte celular.
“Mesmo que exista uma relação, e a proteína em questão seja inativada, outras proteínas também participam da fisiopatologia da doença. Além do mais, esta intervenção [para desligar o aglomerado protéico] tem que ser feita antes de ele se formar, ou seja, antes do indivíduo desenvolver a doença”, afirma Hsin Fen.
Outras perguntas ainda precisam ser respondidas, diz a médica brasileira. “Como o nanocorpo é específico para a alfa-sinucleína em animais, será que os resultados serão reproduzíveis em humanos? E qual é a área necessária para que os nanocorpos injetados possam demonstrar eficiência? A aplicação deve ser feita apenas no sistema nervoso central, ou em outras partes do corpo, uma vez que a doença de Parkinson tem envolvimento sistêmico?”.
De acordo com a neurologista, esses dilemas também são válidos para outros tipos de demência, como o Alzheimer. Neste caso, diz ela, trabalhos com anticorpos monoclonais, como os “anti-amilóides” (proteínas insolúveis que podem se depositar em vários tecidos, prejudicando o funcionamento dos órgãos, por exemplo) não mostraram ser eficazes no tratamento da doença.
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